Revisão clínica · Biometria ocular

    Cálculo de LIO em Ceratocone: Estado da Arte e o Papel do Machine Learning

    Uma revisão abrangente dos desafios biométricos, fórmulas modernas e perspectivas de otimização com inteligência artificial para a cirurgia de catarata em olhos ectásicos.

    1. Introdução: O Desafio Único do Ceratocone

    O ceratocone é uma ectasia corneal progressiva caracterizada pelo afinamento e protrusão da córnea, resultando em astigmatismo irregular e perda progressiva de acuidade visual. Com prevalência estimada entre 50 e 230 por 100.000 habitantes, essa condição afeta significativamente a qualidade de vida dos pacientes.1,2

    Quando a catarata se desenvolve em pacientes com ceratocone, e esses pacientes tendem a desenvolver catarata mais precocemente que a população geral,3 o cirurgião tem uma oportunidade única de melhorar a visão do paciente corrigindo simultaneamente o erro refrativo. Entretanto, esta oportunidade vem acompanhada de um risco substancial: as fórmulas tradicionais de cálculo de lente intraocular (LIO) se tornam progressivamente imprecisas nestes olhos, resultando em erros refrativos pós-operatórios frequentes e, na maioria das vezes, hipermetrópicos.4,5,6

    A magnitude desse problema é significativa. Enquanto em olhos normais as fórmulas modernas alcançam resultados dentro de ±0.50D em 80-90% dos casos, em olhos com ceratocone moderado a severo esses números caem para 30-50% com as melhores fórmulas disponíveis.7,8 Em ceratocone avançado (estágio 3-4), o erro absoluto mediano pode ultrapassar 2.50D com fórmulas tradicionais.5

    2. A Física do Problema: Por Que as Fórmulas Falham

    Para entender por que as fórmulas de cálculo de LIO falham no ceratocone, é necessário compreender três premissas fundamentais que sustentam todas as fórmulas convencionais, e que são violadas pela córnea ectásica.

    2.1 O Índice Ceratométrico: Uma Mentira Conveniente

    Biômetros convencionais medem apenas a curvatura da face anterior da córnea e utilizam o "índice ceratométrico" (tipicamente 1.3375) para estimar o poder corneal total. Este índice pressupõe uma razão fixa entre as curvaturas anterior e posterior da córnea, derivada do olho esquemático de Gullstrand, que assume uma razão posterior/anterior de 0.88.9

    Estudos com tomografia corneal demonstraram que mesmo em olhos normais essa razão é menor do que o assumido. Olsen et al. encontraram uma razão de 0.85 em olhos normais, gerando um erro de 0.20D no poder corneal estimado. Em olhos com ceratocone, essa razão cai para 0.83, elevando o erro para 0.46D.9 Um estudo com OCT de domínio Fourier encontrou que o índice ceratométrico real em olhos normais é de 1.3299 e em olhos com ceratocone é ainda menor (1.3277), significativamente diferente do convencional 1.3375.10

    Córnea normal: razão entre as curvaturas anterior e posteriorCorte esquemático de uma córnea normal, com raio anterior de 7.77 mm, raio posterior de 6.40 mm, espessura de cerca de 540 μm e razão A/P de 1.176.aOlho normalAnterior (R=7.77mm)Posterior (R=6.40mm)~540μmRazão A/P1.176Ceratocone: face anterior mais curva e proporção posterior alteradaCorte esquemático de uma córnea com ceratocone após a ectasia: face anterior mais curva no ápice, proporção posterior alterada, espessura de cerca de 400 μm e razão A/P de 1.137. Erro no K de até +0.46 D por olho.bCeratoconeEctasiaAnterior (mais curva)ápicePosterior (proporção alterada)~400μmRazão A/P1.137Erro no K: até +0.46D por olho
    Figura 1. Representação esquemática da razão entre curvaturas anterior e posterior na córnea normal versus ceratocone. a, Olho normal. b, Ceratocone, com a face anterior mais curva no ápice e a proporção posterior alterada. No ceratocone, a protrusão desproporcional da face anterior altera a razão A/P, tornando o índice ceratométrico convencional (1.3375) impreciso. Adaptado de Olsen, 19959 e Jin et al., 2015.10

    2.2 A Dupla Propagação do Erro

    O que torna o ceratocone particularmente problemático é que o erro na ceratometria se propaga em duas dimensões do cálculo simultaneamente:8

    Na primeira dimensão, a ceratometria é usada diretamente no cálculo do poder corneal na fórmula de vergência. Se o K medido está superestimado, a fórmula "acha" que a córnea é mais forte do que realmente é, recomendando uma LIO com poder menor que o necessário.

    Na segunda dimensão, a maioria das fórmulas modernas usa o valor de ceratometria como preditor da posição efetiva da lente (ELP, Effective Lens Position). Córneas mais curvas, em olhos normais, correlacionam-se com câmaras anteriores mais rasas. Porém, no ceratocone, a curvatura elevada reflete a ectasia e não a anatomia da câmara anterior, distorcendo a predição da ELP.11,12

    Cascata de erro no cálculo de LIO em ceratoconeFluxograma da cascata de erro: o índice ceratométrico impreciso superestima o poder corneal e distorce a predição da posição efetiva da lente; os dois erros convergem na mesma direção e resultam em hipermetropia pós-operatória.CeratometriaK superestimado (índice 1.3375)Poder corneal (vergência)Superestimado em até 1-3 DPredição de ELPELP erroneamente rasaLIO recomendada fracaAmbos os erros somam na mesma direçãoSurpresa hipermetrópica
    Figura 2. Cascata de erro no cálculo de LIO em ceratocone. O índice ceratométrico impreciso gera superestimação do poder corneal E distorção na predição de ELP. Ambos os erros convergem na mesma direção, resultando em hipermetropia pós-operatória.

    2.3 A Irreprodutibilidade das Medições

    Além dos erros sistemáticos, o ceratocone introduz um problema de variabilidade. A córnea ectásica, irregular e com astigmatismo multifocal, torna difícil a obtenção de medições reprodutíveis. Os biômetros ópticos medem a curvatura em um anel de aproximadamente 2.4-3.0mm de diâmetro, área que pode ou não coincidir com a região de maior ectasia. Irregularidades do filme lacrimal e dificuldade de fixação comprometem ainda mais a qualidade dos dados.6

    Este trinômio (índice ceratométrico impreciso, predição de ELP distorcida e medições não-reprodutíveis) explica a magnitude dos erros observados clinicamente e por que a precisão decai progressivamente com a gravidade do ceratocone.

    3. Fórmulas Atuais Específicas para Ceratocone

    Até 2020, a SRK/T era considerada a fórmula mais adequada para olhos com ceratocone, não por design, mas por uma serendipidade matemática: sua tendência a superestimar o poder da LIO em córneas curvas contrabalançava parcialmente a tendência hipermetrópica do ceratocone.5,13

    A partir de 2020-2021, surgiram duas fórmulas especificamente projetadas para ceratocone, representando um avanço significativo no campo.

    3.1 Kane Keratoconus Formula

    Publicada em 2020 no Ophthalmology com base em 147 olhos, a Kane KCN é uma modificação puramente teórica da fórmula Kane original. Seu mecanismo envolve utilizar raios de curvatura anterior corrigidos que melhor representem a razão anterior/posterior real em olhos ceratocônicos, e minimizar o peso do poder corneal na predição da ELP.7

    Kane recomenda ajuste de target refrativo baseado na gravidade: emetropia para K médio até 48D; -0.50D para K entre 48 e 53D; -1.00D para K entre 53 e 59D; e -1.50 a -2.50D para K acima de 59D.14

    3.2 Barrett True-K Keratoconus

    Publicada por Ton, Barrett et al. em 2021, esta fórmula emprega um conceito de "double-K" onde um valor de K é utilizado para calcular a ELP e outro para a fórmula de vergência. Incorpora o poder corneal posterior (medido ou estimado) e a espessura corneal central.15

    Uma vantagem particular desta fórmula é a capacidade de utilizar medições diretas da córnea posterior (ceratometria total ou TK) obtidas por biômetros de OCT de fonte swept-source, como o IOLMaster 700.16,17

    Tabela 1. Comparação das principais fórmulas para cálculo de LIO em ceratocone
    FórmulaMecanismo de CorreçãoVariáveis ExtrasAceita TKAcesso
    Kane KCNK anterior corrigido + ELP desacopladaCCT, LT (opcionais)Nãoiolformula.com
    Barrett True-K KCNDouble-K + córnea posterior + CCTPCA medido (opcional)Simcalc.apacrs.org
    SRK/TNenhuma (serendipidade)NenhumaNãoBiômetros
    Holladay 2 KCAjuste na ELPMúltiplasNãoSoftware proprietário
    EVO 2.0Óptica de Gauss, lente espessaPCASimESCRS IOL Calc
    Pearl-DGSIA + lente espessa (Haigis-based)PCASimESCRS IOL Calc

    4. Evidência Clínica: Desempenho por Estágio

    A classificação de Amsler-Krumeich modificada, baseada no K mais curvo, tem sido adotada pela maioria dos estudos para estratificação: estágio 1 (K ≤ 48D), estágio 2 (K 48-53D) e estágio 3 (K > 53D).7

    Tabela 2. Desempenho das fórmulas por estágio do ceratocone (síntese de múltiplos estudos)
    FórmulaEst. 1: % ≤±0.50DEst. 2: % ≤±0.50DEst. 3: % ≤±0.50DME Global (D)
    Kane KCN58-65%45-55%30-50%+0.04
    Barrett True-K KCN (com TK)55-62%42-54%35-52%+0.08
    Barrett True-K KCN (sem TK)50-58%38-48%28-40%+0.15
    SRK/T61-70%30-45%10-25%+0.31 a +0.91
    Barrett Universal II48-55%25-38%8-20%+0.45 a +1.72
    Hoffer Q40-49%20-30%<15%+0.78 a +3.02

    ME = Mean Error (erro médio). Valores positivos indicam tendência hipermetrópica. Dados compilados de Kane et al. 20207, Ton et al. 202115, Gershoni et al. 20256, Kahuam-Lopez et al. 202518, Yokogawa et al. 2024.19

    Erro médio das fórmulas de LIO por estágio do ceratoconeGráfico de barras do erro médio das fórmulas por estágio do ceratocone. Barras maiores indicam maior desvio hipermetrópico; a fórmula específica para ceratocone mantém o erro médio próximo de zero mesmo no estágio 3.+3.0+2.0+1.00.0Erro médio, ME (D)Estágio 1Estágio 2Estágio 3Kane KCNBarrett True-KSRK/THoffer Q
    Figura 3. Erro médio (ME) das fórmulas por estágio do ceratocone. Valores positivos indicam tendência hipermetrópica, em dioptrias. Barras maiores indicam maior desvio hipermetrópico. A Kane KCN mantém ME próximo de zero mesmo no estágio 3. Dados compilados de Kane et al., 20207 e Gershoni et al., 2025.6

    5. O Componente Tórico no Ceratocone

    O ceratocone produz astigmatismo significativo, frequentemente irregular, levantando a questão: devemos implantar LIOs tóricas nestes pacientes?

    5.1 Quando Considerar Tórica no Ceratocone

    A literatura atual sugere que LIOs tóricas podem ser consideradas em pacientes com ceratocone leve (estágio 1), astigmatismo predominantemente regular na zona central, doença estável (idealmente confirmada por cross-linking prévio ou estabilidade documentada), e boa acuidade visual com correção manifesta.6,20

    5.2 Desafios Adicionais do Cálculo Tórico

    Além dos problemas do cálculo esférico, o componente tórico enfrenta desafios próprios no ceratocone: a estimativa do astigmatismo corneal posterior (PCA) torna-se mais complexa porque os modelos populacionais foram derivados de olhos normais; a conversão do cilindro do plano corneal para o plano da LIO depende criticamente da ELP; e a integração do astigmatismo induzido cirurgicamente (SIA) é menos previsível em córneas ectásicas.

    6. Machine Learning: Uma Nova Fronteira

    O reconhecimento de padrões por machine learning (ML) abre perspectivas únicas para o cálculo de LIO em ceratocone. Diferentemente das fórmulas tradicionais baseadas em modelos ópticos teóricos com premissas fixas, algoritmos de ML podem aprender relações complexas e não-lineares diretamente dos dados.21

    O ML pode potencialmente identificar combinações de variáveis biométricas que são preditivas do resultado refrativo no ceratocone mas que não são capturadas por modelos teóricos.

    É fundamental reconhecer as limitações. O ceratocone é relativamente raro na população de cirurgia de catarata, tornando difícil a obtenção de datasets grandes o suficiente para treinamento robusto de ML. A variabilidade intra-paciente nas medições biométricas adiciona ruído aos dados de treinamento. E a validação pós-operatória é comprometida pela dificuldade de refração subjetiva nesses pacientes.22

    7. Recomendações Práticas para o Cirurgião

    Com base na evidência atual, compilamos recomendações para orientar a prática clínica na cirurgia de catarata em pacientes com ceratocone.

    Tabela 3. Recomendações práticas por estágio do ceratocone
    AspectoEstágio 1 (K ≤ 48D)Estágio 2 (K 48-53D)Estágio 3 (K > 53D)
    Fórmula preferencialKane KCN ou Barrett True-K KCNBarrett True-K KCN com TK (se disponível) ou Kane KCNBarrett True-K KCN com TK (se disponível) ou Kane KCN
    Target refrativoEmetropia (0.00D)Levemente miópico (-0.50 a -1.00D)Miópico (-1.00 a -2.50D)
    LIO tóricaConsiderar se astigmatismo regular e estávelCom cautela, apenas se topografia central regularGeralmente não recomendada
    Tipo de LIOMonofocal (esférica ou tórica), LALMonofocal ou EDOF simplesMonofocal, considerar LAL ou IC-8
    Estratégia adicionalComparar 2+ fórmulasEscolher a LIO mais forte entre fórmulas; comparar ≥3Priorizar a LIO mais forte; considerar K substituto
    Precisão esperada (≤±0.50D)55-70%40-55%25-50%

    LAL = Light Adjustable Lens; EDOF = Extended Depth of Focus; IC-8 = lente de pequena abertura. Recomendações de target refrativo baseadas em Kane, 202014 e Gershoni et al., 2025.6

    8. Perspectivas Futuras

    O campo do cálculo de LIO em ceratocone está em evolução rápida. A ceratometria total (TK) por OCT swept-source está se tornando o padrão em biometria, e sua integração com fórmulas KC-específicas deve melhorar a precisão, especialmente nos estágios avançados.

    A inteligência artificial e o machine learning oferecem a possibilidade de capturar padrões complexos nos dados biométricos que as fórmulas tradicionais não modelam, particularmente as relações não-lineares entre variáveis em córneas ectásicas.

    A Light Adjustable Lens (LAL) representa uma abordagem fundamentalmente diferente: em vez de tentar acertar o cálculo na primeira tentativa, permite ajuste pós-operatório com luz UV. Para ceratocone avançado, onde a imprecisão do cálculo é inevitável, essa tecnologia pode ser transformadora.

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    Sobre o autor

    Bruno Miolo, MD, M.Sc, é oftalmologista e cirurgião de catarata e desenvolvedor da plataforma MIOLO.AI.

    Conflitos de interesse: Bruno Miolo é desenvolvedor da plataforma MIOLO.AI. Nenhum financiamento externo foi recebido para a elaboração deste artigo.

    Como citar: Miolo BL. Cálculo de LIO em Ceratocone: Estado da Arte e o Papel do Machine Learning. MIOLO.AI Blog. Março 2026. Disponível em: https://miolo.ai/article/iol-ceratocone

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